A Argentina que o Gabo viu

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Gabriel García Márquez não quis voltar à Argentina depois de ter publicado sua obra Cem anos de Solidão em Buenos Aires. Não era por falta de afeto. A voz de Gardel estava entre as boas lembranças de sua infância. Ele escolheu publicar em um país com florescimento cultural, embora tivessem derrubado o presidente legal.

Sobre sua qualidade de narrador e do coronel Buendía restou pouco para dizer. Politicamente, nunca se questionou a aproximação do Gabo à União Soviética de Stalin, apesar de que não se perdoou a visita de Borges ao Chile de Pinochet. Lhe encantava ao colombiano frequentar políticos extravagantes, que ajudaram a inspirar seu Outono do Patriarca, que nunca se sabe se é um ditador de direita ou um líder popular.

Quando vivia na Europa, a América Latina estava cheia de ditadores e ele via Perón como mais um, entre os Pérez Jiménez, Rojas Pinilla, Trujillo, Batista ou Stroessner. Nos anos setenta, gostava do grupo guerrilheiro peronista chamado Montoneros, mas lhe recordava que, no seu entender, a origem do movimento era fascista.

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De algum modo o peronismo era incompreensível, como o lunfardo dos subúrbios de Buenos Aires, apesar de que admirava e lia Tomas Eloy Martínez, autor da novela Santa Evita. Também gostava muito de Julio Cortázar e junto a ele foram mais populares que Jorge Luis Borges, quem o governo de Perón nomeou inspetor de frangos e coelhos como castigo.

Certamente Cortázar também escapou ou fugiu do movimento popular. Se diz que Julio escrevia ao norte da Plaza de Mayo, em bares que também eram frequentados por gente como Adolf Eichman, refugiado no rio de la Plata. Contradições argentinas.

García Márquez foi amigo do peruano Mario Vargas Llosa, nos tempos de boemia e pobreza, mas Mario cortou com o socialismo e com ele também, denunciando os fuzilamentos e os tanques invasores. Para a esquerda de café argentina, Gabo era uma fraqueza. Qualquer político pagaria por uma foto com ele, juntamente com Fidel Castro.

O grande paradoxo é que na Argentina da Mafalda, que era a capital literária da América, onde Gabo publicou sua obra, havia mais saúde, trabalho e educação do que hoje. Entretanto, houve fervoroso consenso a combater esse bem estar relativo até desembocar numa ditadura feroz.

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Obrigado, Ana (RJ).

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