Archivo de la categoría: Ariel Kocik

Um “coração argentino”

Quinquela

“Quem escreve, deportado por decreto do Poder Executivo e lei de residência, solicita ao Presidente o indulto de dito decreto. Pelo carinho que eu sinto pela Argentina e o respeito ao seus gobernantes, porquanto a pesar de ser um deportado, nunca perdi a esperança de voltar a Buenos Aires, minha segunda patria, poisa inda hoje, senhor Presidente, juro ante Deus, nao sei o verdadeiro motivo pelo qual me deportaram. Sei que me acusaram de ser comunista… Se eu nao concordei com medidas do seu governo, nao foi por ser anti-peronista, mas por ver as coisas de outra maneira, que eu achava melhor… Um coração argentino nao pode ser mau, chame-se ou nao Juan Perón.”

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Assim escrevia um cidadão espanhol ao presidente argentino, pedindo voltar ao país, de onde tinha sido expulso por decreto do presidente Perón, baseado na lei de residência (uma das mais combatidas pelos trabalhadores). A resposta do líder do justicialismo, foi que pelas suas “atividades subversivas” o causante era um “perigo para a tranquilidade social do país” e cumpria como os requisitos para ser deportado, nao concedendo o perdão para ele.  A lei deportadora, criada pelos conservadores em 1902, foi validada nos anos 1940 pelos deputados peronistas, entre eles John William Cooke (considerado o mais esquerdista deles), depois de terem anunciado o contrário.

Na Argentina, a grande marioria se esquece deste antecedente de política agressiva contra os imigrantes opositores ou simplesmente grevistas -oculta pelo mito e a propaganda do peronismo- que contrariava as melhores tradiçoes do país e da América Latina, de recepção e asilo aos estrangeiros perseguidos. Hoje que os imigrantes de muitos povos sao afetados, nao comvêm continuar esquecendo a história.

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Obrigado, Ana.

A Argentina que o Gabo viu

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Gabriel García Márquez não quis voltar à Argentina depois de ter publicado sua obra Cem anos de Solidão em Buenos Aires. Não era por falta de afeto. A voz de Gardel estava entre as boas lembranças de sua infância. Ele escolheu publicar em um país com florescimento cultural, embora tivessem derrubado o presidente legal.

Sobre sua qualidade de narrador e do coronel Buendía restou pouco para dizer. Politicamente, nunca se questionou a aproximação do Gabo à União Soviética de Stalin, apesar de que não se perdoou a visita de Borges ao Chile de Pinochet. Lhe encantava ao colombiano frequentar políticos extravagantes, que ajudaram a inspirar seu Outono do Patriarca, que nunca se sabe se é um ditador de direita ou um líder popular.

Quando vivia na Europa, a América Latina estava cheia de ditadores e ele via Perón como mais um, entre os Pérez Jiménez, Rojas Pinilla, Trujillo, Batista ou Stroessner. Nos anos setenta, gostava do grupo guerrilheiro peronista chamado Montoneros, mas lhe recordava que, no seu entender, a origem do movimento era fascista.

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De algum modo o peronismo era incompreensível, como o lunfardo dos subúrbios de Buenos Aires, apesar de que admirava e lia Tomas Eloy Martínez, autor da novela Santa Evita. Também gostava muito de Julio Cortázar e junto a ele foram mais populares que Jorge Luis Borges, quem o governo de Perón nomeou inspetor de frangos e coelhos como castigo.

Certamente Cortázar também escapou ou fugiu do movimento popular. Se diz que Julio escrevia ao norte da Plaza de Mayo, em bares que também eram frequentados por gente como Adolf Eichman, refugiado no rio de la Plata. Contradições argentinas.

García Márquez foi amigo do peruano Mario Vargas Llosa, nos tempos de boemia e pobreza, mas Mario cortou com o socialismo e com ele também, denunciando os fuzilamentos e os tanques invasores. Para a esquerda de café argentina, Gabo era uma fraqueza. Qualquer político pagaria por uma foto com ele, juntamente com Fidel Castro.

O grande paradoxo é que na Argentina da Mafalda, que era a capital literária da América, onde Gabo publicou sua obra, havia mais saúde, trabalho e educação do que hoje. Entretanto, houve fervoroso consenso a combater esse bem estar relativo até desembocar numa ditadura feroz.

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Obrigado, Ana (RJ).

Alguma coisa acontece

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Almeida Júnior

Sao Pãulo pode reunir muitos dos segredos de uma massa itinerante e de uma força centrífuga multicultural, o que faz a região ser o centro da energia, musical e laboriosa, de um povo em estado de mudança, bandeirante e empresário, caipira e vagabundo urbano. As raices do café, da riqueza da terra, até a virada do centro ativo e político do império português na América, do litoral baiano ao Rio de Janeiro, da Bahia de Guanabara à terra da garoa, fizeram dela o cenário de uma imigração e crescimento vertiginosos e desmedidos. A sensação de temor que gera sua imensidão, sua imagem noturna interminável, bem pode achar opostos na indefinível calma do café no meio da humanidade sem trégua; de uma imagem do Almeida Júnior, a mudança do tempo e da geografia, a conugação do progresso con os mistérios do terreiro do litoral, ainda presentes na pele e no sorriso da mocidade. A simpleza da gente, as muitas caras da cidade, a poesia oculta no mar de concreto e na arquitetura erguida, entrelaçam trilhos e fumaças, naturezas nos olhos, sons de caixas e ritmos de eletricidade, correntezas urbanas e chuvas suaves.

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Carmelo Gentil

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Buenos Aires era solo San Telmo. Poco más del  puerto viejo por la calle Defensa hacia la Plaza Mayor. El barranco del Parque Lezama de la fundación mítica, que une el barrio de Mafalda con las casas de italianos y las barracas del Riachuelo, tuvo un centro de esclavos y fue pasaje de la milonga sureña hacia el mundo; hasta hoy concentra el sonido de tambores que se cuela en la vida artística. Si la ciudad nació por la Boca del río, el ritmo llegó de Dock Sud y la Isla Maciel, regando la orilla hasta el Puente Alsina. El comercio ilegal en barcos y suelos anegados, los cueros de la campaña, el cuchillo y el almacén hicieron la Santa María de la Magdalena, zona ganadera hacia el sur, y cerealera en el resto de la pampa redonda, que construyó la riqueza del barrio norte. Al igual que en Rio Grande del Sur, la carne y el puñal hicieron la leyenda. También fue vertiginoso. La “cara europea” no oculta el arte venido del interior, nutrido de magias de tierra o de mar lejanas, como sus bordes fabriles que hicieron el resto. El romance de Evita con Magaldi puede resumir mejor el tango que se armó a la vuelta del progreso. Al fin y al cabo, sigue siendo un pueblo, a dos cuadras de Corrientes.

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Caseros, Brasil em Buenos Aires

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Rosas e as classes populares. “Candombe” dos negros. Obsérva-se ao governador.

O rio da Prata sempre foi uma área disputada pelas potências. Buenos Aires foi, em parte, uma “indústria do contrabando dos portugueses”, especialistas na questão, falaria um historiador. Com o tempo, a re-orientação atlántica do comércio do império espanhol, convertiu a cidade numa importante saida dos metais do alto Perú, minerais que deram nome ao pais mesmo: o argentum, dai os “argentinos”. A cidade nem gerava prata, mas era boa intermediária. Os fazendeiros das “pampas” desenvolveram a exportação das carnes e dos couros, como aqueles outros camponeses do Rio Grande do Sul. De fato, o Brasil foi um destino desses produtos portenhos, consumidos pelos escravos do Rio De Janeiro e da Bahia. Os fazendeiros se opuseram a dividir a riqueza do porto com as outras províncias do pais. Assim se demorou a organição nacional. Após da independência e de um periodo de desunião, um fazendeiro, Juan Manuel de Rosas, governou a província e a “confederação” dependente dela.

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Gaúchos desse tempo. A cor vermelha foi o símbolo da “federação” do Rosas.

Rosas permanecéu no poder por muitos anos, governando com violenta autoridade, dai que se falara da “tirania de Rosas”. Seus rivais eram aqueles que projetavam, no exílio, a Argentina liberal, constitucional e moderna que o mundo conheceria, como Sarmiento e Alberdi. Assim que Rosas tinha controlado conflitos (teve um bloqueio anglo-francês) e rebeliões internas, so faltava se consolidar mediante alianças com o império brasileiro, aconselhadas por seu ministro no Rio de Janeiro. Mas ele desestimou a possibilidade. Os fazendeiros portenhos tinham competidores no litoral de Entre Rios. Um outro fazendeiro de lá, Justo José Urquiza, revelou-se, juntou-se com o Uruguay contrário a Rosas, e finalmente com o império do Brasil. A formação do “exército grande” significaria o final do poderoso Rosas, aquele “gaúcho louro” que demorou a sanção da Constituição argentina.

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O mundo rural, segundo Prilidiano Pueyrredón.

Seria o final, também, dum governo forte que criou tradições de base popular. Tem milongas que falam dele e das mulatas de San Telmo que eram suas seguidoras. Paradoxalmente, a Argentina moderna, liberal e republicana, teve sua origem na intervenção de um exército imperial brasileiro, que foi a base do “exército grande” que vencéu ao Rosas na batalha do Monte Caseros. Assim chegou a Buenos Aires o enterriano Urquiza, primeiro presidente contitucional. Os brasileiros e os “entrerrianos” caminharam pela atual praça de Maio de Buenos Aires, gerando a reação do orgulho portenho. Buenos Aires teve mais intentos separatistas, até a definitiva união das províncias. Tudo estava pronto para a chegada dos imigrantes e o programa educativo. “Ordem e progresso”, bandeira do Brasil, foi também o programa do presidente Julio Argentino Roca.

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Classes altas portenhas.

La Argentina que vio Gabo

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García Márquez no quiso volver a la Argentina después de haber publicado en Buenos Aires su obra Cien años de soledad. No era por falta de afecto. La voz de Gardel estaba entre los buenos recuerdos de su niñez. Eligió publicar en un país con florecimiento cultural, aunque habían derrocado al presidente.

Poco queda por decir de su calidad de narrador y del coronel Buendía. Políticamente, nunca se cuestionó a Gabo su cercanía a la Unión Soviética de Stalin, aunque a Borges no se le perdonó su visita al Chile de Pinochet. Al colombiano le encantaba frecuentar políticos extravagantes, que ayudaron a inspirar su Otoño del Patriarca, que nunca se sabe si es un dictador de derecha o un líder popular.

Cuando vivía en Europa, América Latina estaba plagada de dictadores, y él veía a Perón como uno más, entre los Pérez Jiménez, Rojas Pinilla, Trujillo, Batista o Stroessner. En los años setenta, quería a los montoneros, pero les recordaba que, a su juicio, el origen del movimiento era fascista.

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De algún modo el peronismo era incomprensible desde lejos, como el lunfardo de los suburbios de Buenos Aires, aunque admiraba y leía a Tomás Eloy Martínez, autor de la novela Santa Evita. También quería mucho a Julio Cortázar y junto a él fueron más populares que Jorge Luis Borges, a quien el gobierno de Perón nombrara inspector de pollos y conejos como castigo.

Por cierto, Cortázar también había escapado del movimiento popular. Se cuenta que Julio escribía al norte de la Plaza de Mayo, en bares también frecuentados por gente como Adolf Eichman, refugiado en el río de la Plata. Contradicciones argentinas.

Gabriel García Márquez fue amigo del peruano Mario Vargas Llosa, en tiempos de bohemia y pobreza, pero Mario rompió con el socialismo y con él también, denunciando los fusilamientos y los tanques invasores. Para la izquierda de café argentina, Gabo era una debilidad. Cualquier político hubiera pagado por una foto con él, a la par de Fidel Castro.

La gran paradoja es que en la Argentina de Mafalda, que era la capital literaria de América, donde Gabo publicó su obra, había más salud, trabajo y educación que hoy. Sin embargo, hubo fervoroso consenso en combatir ese bienestar relativo hasta desembocar en una dictadura feroz.

julio cortazar

 

Publicado en Cuentos peronistas (2014)

Osvaldo Peredo, cantor de Almagro

osvaldo peredo
Foto: Gapguiadeamores.com

Ariel Kocik. Osvaldo Peredo es un ícono del resurgir del tango. Cantor de Almagro, Boedo y otros barrios de Buenos Aires, se lo disputan las orquestas juveniles que renuevan una magia que, a la vuelta de los años noventa, encontró nuevos baluartes y respiro, para no quedarse en un museo. Testigo de noches irrepetibles, su caudal para una voz vivaz y sucia, Peredo concentra la admiración de los que empiezan a descubrir la música de sus abuelos inmigrantes.

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Puente Alsina. Pablo Alonso.

Entre la atracción turística y los formatos de viejos éxitos, no es fácil alimentar esa cultura con nuevos testimonios y personalidad propia. Acaso se pasó por alto muchas veces que, antes que un género más o menos de moda, es una cultura rioplatense, que arrastra orillas y miserias, bastante lejos de reflejarse en el tango “académico” o bobo que alejó tantas simpatías.

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Un origen sureño. Imagen por Ernesto Quiroz.

Leer más: Osvaldo Peredo, cantor de Almagro (Revista El Abasto)